sábado, 7 de junho de 2008

O dia 20 de novembro

Mais um feriado está fazendo parte do calendário de muitos municípios e, como de praxe, a atenção se restringe somente ao fato do dia ser de descanso e não para a importância da data. Trata-se do dia 20 de novembro, em que se celebra o Dia da Consciência Negra, cujo significado é encarar o negro como um elemento formador do país e de seu povo, dotado de cultura e inserido em nossa sociedade.
Após séculos de escravidão, o Brasil o tardou a abolir o sistema e, da forma em que foi realizada, a abolição objetivava questões econômicas e não valores humanitários, ou seja, pensou no financeiro e não no sofrimento de um povo.
Assim, depois de liberto o negro passou a vagar pelo país afora, sofrendo a mesma humilhação e com um sério agravante, pois não tinha onde trabalhar, uma vez que em seu lugar havia um assalariado, tornando sua vida ainda pior, já que estava desprovido até de condições de se alimentar.
A abolição marcou então uma nova fase na vida do negro, cuja trajetória sempre foi marcada pelo preconceito sofrido, desvalorização e desprezo, nunca sendo respeitado como ser humano. Somado ao pensamento racista, preconceituoso e discriminatório o negro, sem nenhuma outra possibilidade, começou a habitar as periferias da cidade, e a se sujeitar a fazer qualquer atividade para garantir seu sustento. Não é de estranhar que hoje os negros sintam dificuldades em se encaixarem no mercado de trabalho e que haja a necessidade de cotas de vagas nas universidades para negros. A sociedade brasileira os colocou nessa condição e não se preocupou em nenhuma ocasião em deixar a mentalidade colonial.
Mas, felizmente as coisas se transformam, e nem sempre para pior. O comportamento das sociedades, mesmo que timidamente, vêm se alterando e o negro, com toda a dificuldade, vem conquistando seu espaço e seu respeito. Porém não podemos pensá-lo somente em uma data, devemos fazer isso todos os dias, todos os momentos. Do contrário ele é lembrado em um dia e esquecido os 364 restantes.
Feriado é importante, mas não é o suficiente. É apenas o início de uma mudança que deve ser grandiosa. É necessário reconhecer o negro em todos os aspectos, principalmente como um ser humano. É necessário mudanças no pensamento das pessoas, onde essas não fiquem presas ao pensamento do passado, onde não se julgue pela aparência ou pelas diferenças físicas.
Marcelo Augusto da Silva - 20/11/07

A invasão da pirataria

A quantidade de pessoas que já assistiram ao filme Tropa de elite, cuja estréia nos cinemas ocorreu no dia 12 de outubro, acirrou o debate que envolve o comércio de produtos piratas. Antes mesmo de ser lançado oficialmente, o filme já foi visto por milhares de pessoas, que graças à pirataria, pode ser assistido inclusive na internet. Alguns defendem essa atitude alegando que, mesmo de forma ilegal, estão tendo acesso a uma produção nacional e tendo contato com uma realidade do Brasil atual, pois um filme brasileiro exibido somente nas salas de cinemas provavelmente não atingiria um público desses.
O comércio de produtos piratas já não é uma novidade, principalmente no segmento do entretenimento, em que CD’s e DVD’s são vendidos às pencas escancaradamente por camelôs e até em estabelecimentos comerciais.
Vale lembrar que a pirataria além de ser crime, sonega impostos, tira empregos e de certa forma é uma concorrência desleal. No entanto por outro lado a carga tributária excessiva e o lucro exorbitante de gravadoras de CD’s e distribuidoras de DVD’s elevam o preço final desses itens tornado-o acessível a uma pequena parcela da população, o que explica, mas não justifica, a venda dos produtos piratas em grande proporção.
A prática da pirataria se espalhou em todos os setores, atingindo até os fármacos e os medicinais, onde próteses também são falsificadas. Os CD’s e DVD’s são, equivocadamente, considerados como mercadorias. No entanto eles vão muito além dessa classificação, pois tratam-se de produções artísticas, intelectuais e culturais, que têm por finalidade não satisfazer os consumidores nos momentos de sua aquisição, mas sim descontrair, informar, proporcionar momentos de prazer , não podendo ser confundidos ou comparados com meras marcas registradas que visam unicamente o lucro. Sendo assim deveriam ser considerados como patrimônios culturais de acesso geral e não exclusivo, nem mesmo serem de propriedade de gravadoras ou de distribuidoras, pois quem produz uma obra, não produz exclusivamente para si, e sim para quem dela quiser ter contato. Artistas, autores, atores, produtores, lojistas e todos envolvidos numa produção artística obviamente te que ter seu ganho, ou seja, deveriam ter um preço que garantisse isso, não um valor exageradamente alto.
Se houvesse um entendimento entre governo e empresas responsáveis pela produção e comercialização desses artigos para que os preços dos produtos originais tivessem uma redução significativa, certamente a venda dos piratas iria reduzir muito, o país iria aumentar a sua arrecadação e postos de trabalho iriam abrir, pois certamente os consumidores iriam preferir pagar um pouco mais por um produto original, tendo a certeza adquiriram qualidade e garantia.
Marcelo Augusto da Silva - 19/10/07

Zona Azul: prós e contras

São José do Rio Pardo cresceu, e com ela sua frota de veículos e o número de estabelecimentos comerciais, num processo natural e irreversível, pois como disse Euclides da Cunha, “não há como conter o progresso”. Nesse contexto foi criada há alguns anos a Zona Azul – sistema de estacionamento tributado e rotativo - para resolver o problema da falta de vagas nas vias públicas do centro da cidade. Desde essa época ela vem sendo uma divisora de opiniões.
Se um município cresce devemos acompanhar sua expansão ou no mínimo nos adequarmos a ela, o que justifica assim a criação do estacionamento propriamente dito. Porém vale ressaltar que por envolver vias púbicas e o seu respectivo pagamento, sua instalação e manutenção devem ser realizadas com muita cautela, tentando assim satisfazer a maioria dos usuários.
Inicialmente o parqueamento solucionou o velho problema de motoristas e comerciantes onde os motoristas não precisam mais procurar vagas por diversas ruas, pois o sistema não permite que um automóvel permaneça horas estacionado num mesmo local, e no caso dos comerciantes, o benefício de fez possibilitando um maior fluxo de pessoas nos estabelecimentos, uma vez que, as vagas são desocupadas constantemente. Além do mais a Zona Azul permitiu a criação de várias oportunidades para os jovens ingressarem no mercado de trabalho, proporcionando a eles uma ocupação e uma remuneração.
Todavia, como tudo aquilo que envolve a “coisa pública” tem seus problemas, a começar pelo número excessivos de ruas que fazem parte da Zona Azul, ficando muito além daquelas centrais nas quais as edificações são praticamente todas ocupadas por comércios ou prestadoras de serviços.
Na ocasião de sua implantação, o projeto, aprovado em Assembléia Municipal, determinava que as ruas que fariam parte do sistema eram aquelas de maior concentração comercial, mas conforme os motoristas ou os empregados do comércio estacionavam seus carros nas vias que não estavam fazendo parte do estacionamento, a Zona Azul foi se ampliando, alcançando hoje ruas distantes das comerciais. Há ruas onde não existe comércio, mas a Zona Azul está presente, para que o motorista que não queira pagar a taxa seja impossibilitado de estacionar seu veículo e deslocar-se a pé até o seu destino. Um estacionamento pago deveria ser feito para resolver o problema do trânsito não para punir motoristas. Isso porque, embora seja feita para garantir a rotatividade das vagas, tal cobrança fere o direito fundamental de ir, vir e permanecer, garantido pelo artigo 5º, inciso XV da Constituição Federal.
Outro fator que causa desconforto aos usuários é o preço cobrado pelo serviço, que não oferece mais a tarifa de 30 minutos de permanência, obrigando o motorista a pagar por um serviço mesmo que não vá usá-lo.
À equipe responsável pela manutenção da Zona Azul, todo o respeito pela competência na realização do serviço, mas é preciso pensar detalhadamente em cada questão que envolva o seu funcionamento, para que assim se possa garantir a satisfação dos rio-pardenses - que vivem transtornados com o trânsito intenso que a cidade passou a ter - e também o desenvolvimento do município.
Marcelo Augusto da Silva - 06/10/07

O senador e o lavrador

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Rui Barbosa
O Brasil é conhecido por todos como o país do contraste, do paradoxo e da discrepância. Poucos ganham muito e muitos ganham pouco; uns comem com colher de prata, outros comem com a mão e uns outros tanto nem comem. Assim como o país é a sua capital, erguida no nada do planalto central, ostenta o luxo sobre uma nação que padece de pagar impostos, de ser humilhada, despojada e abandonada à própria sorte. Local onde pouco se trabalha e muito se ganha, e a sujeira que ali brota é sempre jogada debaixo do tapete.
O jogo de interesses, a falcatrua e o descaramento já fazem parte não só da capital em si, mas também da índole de muitos que de lá nos comandam. A riqueza da cidade mais parece ser um troféu erguido à exploração e à impunidade.
Um fato que exemplifica bem a situação é o recente caso do senador Renan Calheiros que, em meio a uma montanha de acusações pesadíssimas sobre seu governo e a sua conduta política, teve um julgamento às escusas, realizado a portas fechadas à imprensa e a qualquer outro tipo de pessoa que não fosse da casa, sem a mínima consideração com o povo e com os eleitores que confiaram no referido político, investindo-o de direitos para ser seu legítimo representante. No Brasil o sentido de democracia ou de transparência é outro, pois o fato só confirma que alguns são mais iguais que os outros ou então que a lei não é a mesma para todos. Enquanto o país acompanhava perplexo e do lado de fora o “julgamento” lá corria solta a maracutaia e a troca de favores. Ao término sai o dito “réu”, impune, ileso, como se zombasse do brasileiro com seu ar dissimulado, seu sorriso falso e suas palavras ensaiadas.
Para aumentar ainda mais o pesar dos fatos esdrúxulos de Brasília, na quinta-feira, dia 20, um lavrador que há quatro dias não comia, tentou, numa atitude impensada e desesperada, furar a segurança e ir pessoalmente apelar ao presidente. É claro que como sede do governo federal há a necessidade de se manter uma segurança mais rígida possível, mas o episódio é no mínimo revoltante devido ao tratamento que um trabalhador faminto teve em comparação a um político envolvido até o pescoço de denúncias gravíssimas.
A mesma segurança que dias antes usou a força para barrar deputados que queriam usar seus direitos e participarem do julgamento, usaram agora dos mesmos poderes para imobilizar e levar para bem longe um contribuinte que, mesmo com a miséria que recebe, colabora com o sustento da capital do país, seus habitantes e suas sanguessugas. Por que então um tratamento à altura não foi dado a um homem que até o momento não honrou seu cargo, e por que o trabalhador não foi ao menos tratado com o mínimo de dignidade, ao invés de ser humilhado, jogado ao chão e imobilizado como se faz a um contraventor? È necessária tanta rigidez com uma pessoa e tanto cortejo à outra?
No Brasil parece que em nenhuma situação a justiça é feita.

Marcelo Augusto da Silva - 29/09/07

Cultura para todos

“A gente não quer só bebida a gente quer bebida, diversão, balé, a gente não quer só comida a gente quer a vida como a vida quer”.
Comida, Titãs

Apesar de ser aplicado erroneamente com freqüência, o termo cultura - que de acordo com o Aurélio, significa o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas e intelectuais, típicos de uma sociedade - ele, mesmo inadequadamente usado, expressa de uma forma geral os eventos e manifestações artísticas.
Não importa qual seja a manifestação, ela sempre trás bem estar, contentamento, satisfação e muito mais, como reflexão, exemplo, aprendizado.
As cidades do interior parecem estar fadadas ao abandono cultural. Com raras exceções que cumprem fielmente seu papel e com toda a competência a população vive à margem dos eventos culturais. É necessário investir em cultura de todos os gêneros e para todos. É preciso urgentemente oferecer mais peças teatrais, apresentações musicais, danças, exposições, enfim tudo que desperte em cada um de nós as sensações descritas.
Quem tem esse hábito prazeroso de freqüentar tais eventos cada dia sente mais o desprezo com que eles são tratados, e conseqüentemente, sente mais sua falta. Além do fato de conviver sem essas manifestações culturais, as pessoas sem elas se fecham, se isolam cada uma dentro de si e dentro de suas casas, ficando assim condenadas a verem somente a mesmice televisiva e os seus dias se sucederam com a mais cruel rotina, não por simples acomodação, mas sim por falta de oportunidade.
Alguém que vai ao teatro quebra o monótono de seu cotidiano, quebra a alternância desgastante de casa e trabalho; volta revigorado. Uma família que prestigia uma apresentação musical de qualidade volta para sua casa mais alegre. Quem troca a poltrona de sua sala pela a de uma sala de cinema tem grandes chances de despertar renovado no dia seguinte.
Entretanto não basta só reclamar da falta de opções, é necessário que haja um esforço coletivo entre as administrações, no sentido de investirem mais no setor, e também por parte das pessoas em dar o primeiro passo e começar a mudar um pouco sua direção e ver que há, ainda que raras, outras formas de entretenimento que farão bem a ela e a quem estiver ao seu redor.

Marcelo Augusto da Silva - 22/09/07