quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A esquerda alemã nas telas

Quando adquiri em 1984 o primeiro disco da Legião Urbana – um dos clássicos do rock nacional da década – a faixa Baader-Meinhof Blues me chamou a atenção já com as primeiras frases, as quais Renato Russo cantava “a violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais”, porém toda idéia que ele transmitia em forma de música era pra mim algo desconexo, pois não sabia o contexto da obra em si.
Com o tempo fui saber que Baader-Meinhof tratava-se do apelido dado à RAF (Facção Exército Vermelho, em alemão Rote Armee Fraktion) um grupo de extrema esquerda da Alemanha que agiu na década de 1970 e foi extinto em 1998, e que foi tema do filme O grupo “Baader-Meinhof “dirigido por Uli Edel, onde estreou nos cinemas em 2008 e chegou às locadoras recentemente.
O filme enfoca bem a personalidade dos principais integrantes do grupo e os motivos que levaram à sua formação, que dentro dos acontecimentos daquela década era a luta contra o governo da Alemanha ocidental sob a alegação de permanência de uma ideologia nazista, o capitalismo e o imperialismo estadunidense, a Guerra do Vietnã, a criação do Estado de Israel em territórios palestinos e a fabricação de armas nucleares. O apelido dado ao grupo nasceu da junção dos sobrenomes do seu líder e de uma jornalista que o ajudou numa fuga histórica da prisão, numa espécie de referência ao episódio e aos dois integrantes em si.
Apesar de ser uma produção alemã o filme tem toda aquela dinâmica do gênero ação, principalmente nas cenas em que há a atuação do grupo, uma vez que para conquistar a efetivação dos seus propósitos, eles aderiram à luta armada e iniciaram uma tática de ataques e confrontos com seus opositores, que sempre eram recheados de violência - justificada por eles como uma resposta à violência a qual foi dada ao grupo pelo governo - e também pelas investidas contra os bancos para arrecadar fundos para financiar esses ataques. Aliás, o grupo não se referia a essas ações como roubo, mas sim como expropriação, do mesmo modo que a esquerda armada brasileira utilizou do termo no período da ditadura militar, onde se tomava o dinheiro do capital financeiro, que crescia com a exploração da população, para destiná-lo dignamente numa causa que iria favorecer essa mesma população.
Antes de assistir ao filme vi o seu trailer (disponível no youtube) e de início já notei que a questão do terrorismo era bem evidenciada, como se tivesse uma preocupação muito grande por parte do diretor em caracterizar o grupo dessa maneira, numa forma de ligá-los ao terrorismo atual. Um ato violento contra um prédio público ou privado é considerado terrorismo, principalmente seu houver vítimas, no entanto os motivos desses atentados da década de 70 e são bem diferentes dos atuais, o que não se pode relacionar ao terrorismo de hoje nem querer entender o mundo atual pelas atividades do grupo alemão assim como sugere, embora nas entrelinhas, o filme e mais enfaticamente o trailer. Hoje o terrorismo está associado ao fundamentalismo que antes de qualquer coisa tem um intuito totalmente religioso, o que não pode ser confundido com as ações do Baader-Meinhof, cujos propósitos eram políticos e sociais.
Só depois de vê-lo é que se constata a diferenciação daquele momento com o de hoje, as ideologias latentes e o desejo dos jovens em mudarem o mundo e se arriscarem na conquista desse objetivo são bem distantes do que temos atualmente. De qualquer forma o filme é uma boa indicação para quem quer ir mais a fundo na canção da Legião Urbana, conhecer o mundo no período da Guerra Fria e tirar suas próprias conclusões sobre qual o melhor caminho para se reverter uma situação de opressão e violência.
Marcelo Augusto da Silva - 05/02/10

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Outro tormento para o Haiti

Os desastres naturais parecem estar virando uma constante pelo mundo; enchentes em muitas cidades brasileiras, fortes nevascas no hemisfério norte e o terremoto que atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro causando uma tragédia gigantesca.
Indiscutivelmente quaisquer dessas ocorrências é uma desgraça de proporções descomunais, mas pior ainda é para o Haiti onde a rotina do país já é infortúnio em si, agravada ainda mais com esse incidente que deixou a carente população do país com 200 mil mortos e aproximadamente três milhões de desabrigados.
Situado no mar do Caribe o pais ocupa a parte ocidental de uma ilha que privilegia-se por ocupar um local envolto em belezas naturais, no entanto o território não teve sorte ao se localizar bem no limite entre duas placas tectônicas que o tornaram vulnerável aos terremotos de alto graus, como o que ocorreu nesse mês que atingiu 7.3 na escala de Richter, deixando-o praticamente ao chão.
Além dessa falta de sorte na questão geográfia, a história do Haiti não foi diferente para contrabalancear a situação. Inicialmente uma colônia espanhola a parte da ilha – a qual localiza-se o Haiti – foi cedida à França pelos espanhóis que assim como em toda América Central e do Sul sofreu com a exploração européia, que utilizava o território e o seu povo para desenvolver uma atividade agrícola que enriquecesse a metrópole.
No começo do século XIX o Haiti pôde mostrar ao mundo que nem sempre um povo pode ou tem o direito de dominar o outro, principalmente por questões étnicas, já que nesse período o ex-escravo Jacques Dessalines (em 1794 o Haiti após uma revolta escrava tornou-se o primeiro país do mundo a abolir a escravidão) organizou um exército que derrubou e expulsou os franceses, tornando o país livre e liderado por um negro. Era evidente que as nações imperialistas não deixariam esse movimento que solidificar e nem que outros países também pudessem seguir esse exemplo; logo em 1804 escravistas europeus e estadunidenses decretaram um bloqueio comercial ao Haiti que terminou 60 anos mais tarde após o pagamento de 90 milhões de francos ao franceses que haviam cercado o país e exigiam a quantia como forma de indenização.
A partir desse momento o país começa a viver a sua trajetória de instabilidade política e miséria que vai levar à penúria todo povo haitiano. A gravidade é tamanha que só da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, dos 20 governantes sucederam-se no poder 16 desses foram depostos ou assassinados. Tropas dos EUA ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país. O resultado nem é necessário avaliar.
Caso clássico do autoritarismo e da falta de democracia no país temos com François Duvalier, conhecido como Papa Doc, que apoiado pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, instaurou uma feroz ditadura baseada no terror policial dos tontons macoutes (bichos-papões) - sua guarda pessoal - e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica. Papa Doc morreu em 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc que em 1986 decretou estado de sítio. Os protestos populares se intensificaram e ele fugiu com a família para a França, deixando em seu lugar o General Henri Namphy. Posteriormente as crises políticas viraram uma característica do páis onde ocorrem as lutas entre opositores e governo e o desrespeito à Constituição, numa das quais resultou recentemente a intervenção do Conselho de Segurança da ONU que enviou tropas de soldados brasileiros em missão de paz e estabilização política.
Entre tantas desventuras para o Haiti, cujo tamanho é igual aos estados da Paraíba e Sergipe juntos, temos ainda a natureza que castigou os haitianos, que vai penar com a sua pobreza, carência de estrutura física e política e a falta de recursos médicos e financeiros para recuperar o país.


Marcelo Augusto da Silva - 22/11/10

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nova versão de um problema antigo

Ir ao cinema durante os meses de dezembro e janeiro com a intenção de ver algum lançamento que não seja uma superprodução ou então um filminho inocente é uma investida perdida, pois nessa época só há filmes que se encaixam nesses estilos.
Como não há mais nada interessante resolvi assistir a megaprodução do momento Avatar do diretor James Camerom, que dispensou milhões de dólares em investimentos e tem lotado as salas de todo mundo. Assim fui com a maior despretensão, já preparado para ver algo que não seria nenhuma novidade.
De fato o filme segue o velho esqueminha dos roteiros previsíveis, os quais conseguimos saber o final já nos primeiros minutos de exibição e com recursos computadorizados e efeitos especiais que o deixam mais se assemelhando a um vídeo game de última geração.
O que me chamou a atenção, apesar do enredo tosco, é a versão nova de algo antigo que esse longa metragem trabalha. Explico: a história se passa no futuro, num planeta chamado Pandora, onde os seres humanos o invadem com o objetivo, é claro, de explorar algum recurso que lhe traga bons lucros, que nesse caso é um minério que lá existe em abundância, porém o inconveniente são os nativos desse mundo que não aceitam a invasão humana e lutam como podem para manter o inimigo afastado. Um soldado deficiente é enviado numa missão especial àquele lugar e tem o seu avatar criado – criatura feita em laboratório que se sintoniza com o ser humano numa espécie de simbiose, onde esse humano enquanto dorme numa cápsula passa a ser um elemento nativo, denominado assim de avatar – o qual penetra na paisagem natural de Pandora, uma floresta colorida e habitada pelos mais estranhos seres, cujo aspecto mais se assemelha a uma capa de disco de banda progressiva da década de 1970 e assim passa a conviver com os seres de Pandora.
Do outro lado há um outro militar, seu superior, muito parecido com um misto de Rambo com o boneco Max Stell, que deseja a todo custo conquistar as reservas minerais que são habitadas pelos nativos do planeta. Este faz uma proposta ao militar deficiente para trazer o maior número de informações sobre o local e acabar dessa maneira com os nativos. Nesse meio tempo o avatar do militar começa a envolver com os nativos e a ter o mesmo sentimento de amor à natureza, suas ligações com ela e o seu senso de preservação, o que faz ele a não ficar do lado dos terrestres.
Em meio a isso tudo, apesar da mesmice da trama onde o personagem tirano se redime e fica do lado dos oprimidos, o curioso é que por se tratar de um filme atual e futurista o velho problema que vemos acontecer durante toda a nossa história ainda acontece, como a invasão de territórios já habitados, o não respeito às diferenças, a intolerância e a não aceitação daqueles que são diferentes devido ao interesse de enriquecimento. Dessa vez ele é fora da Terra, provavelmente pelo fato de não mais haver onde explorar e a quem dominar, mas independente do local os acontecimentos são os mesmo; o massacre é o mesmo.
O que fez o roteirista e o diretor desse filme foi mudar de tempo algo que não é novidade, tirou o problema do passado e do presente e o mandou para o futuro e para um local distante. Quanto a mentira de que alguém pode pensar no outro e que os que são molestados podem inverterem o jogo foi mantida, talvez para mascarar essa tendência ambiciosa e preconceituosa, tão presente e característica no povo que realizou o filme.


Marcelo Augusto da Silva - 08/01/09

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Morreu o sonhador, não o sonho

Oh! Nem o tempo amigo, nem a força bruta, pode um sonho apagar
Canção do Novo Mundo – Beto Guedes

Há vinte e nove anos atrás, no dia 08 de dezembro, uma tragédia deixou o mundo um pouco mais sem graça. Vítima de uma insanidade de um fã John Lennon não pôde continuar a trilhar o seu caminho em busca de um mundo de paz.
Se ele foi sonhador demais ou utópico demais ficou, na pior das hipóteses, o exemplo de que se todos fizerem a sua parte e juntos cantarem a mesma canção, há possibilidades de melhora.
É muito arriscado analisar a personalidade de John Lennon e também da sua carreira artística em poucas palavras, pois há uma quantidade imensa de acontecimentos que podem levar a diversas reflexões sobre ele. Com sua vida artística projetada com os Beatles o artista se destacou junto Paul McCartney nas composições do grupo que fizeram um sucesso até hoje inigualável. Certamente ele percebeu os rumos que a banda estava tomando e resolveu buscar aquilo que o satisfazia e não se deixando cair na trivialidade que muitas bandas atingem após uns anos de existência; a própria história dos Beatles mostra uma evolução em seu trabalho, passando das baladas de um rock melódico a um trabalho mais maduro e engajado concretizado em álbuns históricos no estilo psicodélico como o Revolver (1966), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), Álbum Branco (1968) e Yellow Submarine (1969). Possivelmente essa evolução levou Lennon a se motivar a ir mais além, partindo para uma carreira solo e não ficar restrito a um grupo que pudesse lhe limitar ou então que não se sustentaria por muito tempo, independentemente da sua qualidade, e da coesão que sempre houve entre seus integrantes.
Polêmico por muitas vezes, como na ocasião em que afirmou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo e ousado ao se tornar um ativista contra a Guerra do Vietnã, a qual os EUA estavam travando e sendo assim investigado pelo governo Nixon que tentou deportá-lo, procurou disseminar no mundo a paz em forma de música. Lennon incentivou a todos a sonharem, a lutarem por esse sonho e enfim a realizarem esse sonho. John Lennon se coloca hoje entre as grandes personalidades que se destacaram por não se acomodarem diante de uma realidade insuportável; faz parte daquele seleto grupo de pessoas que não se encaixam no que é imposto e conseguem achar o canal apropriado para colocar em prática aquilo que desejam.
É claro que sua morte prematura e em condições adversas como ocorreu o projetou ainda mais e lhe garantiu um número ainda maior de fãs, muitos deles sem a mínima noção de quem ele foi e do que ele propunha. Porém independente daqueles que idolatram quem já se foi e assim transformam a execução de suas composições num grande clichê, John Lennon deixou a sua mensagem, que continua inspirando as pessoas e as conduzindo a um nível em que se tenta atingir a harmonia. Embora ironicamente vítima da violência muito combatida por ele, seu sonho de paz ainda continua vivo num mundo bem mais caótico daquele que ele queria mudar nas décadas de 1960 e 1970.


Marcelo Augusto da Silva - 11/12/09

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entre estadunidenses, israelenses e iranianos

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho, você sabe que a gente precisa entrar em contato
Por quem os sinos dobram – Raul Seixas

Penso que um chefe de Estado deva manter uma postura diplomática com os chefes de outros países, mas não que isso expresse que ele tenha curvar-se diante deles e deixar de lado sua opinião e conduta. Se nessa tivemos a visita de Mahmoud Ahmadinejad - presidente do Irã, antiga Pérsia, uma das grandes civilizações do passado – não significa que o Brasil concorde com a ideologia iraniana ou com a do seu representante. Porém não podemos esquecer que tivemos também no país a presença de George Bush, representante do imperialismo yankee, e o presidente de Israel, Shimon Peres, o que deveria dividir as críticas contra Ahmadinejad entre eles ou então tentar entendê-la como parte de uma relação cordial entre nações, sem que elas interfiram no nosso cotidiano nem que subjugue nosso povo.
Não se deve concordar nem muito menos apoiar e bajular quem não respeita outros grupos sociais e nações ou então quem viole e vai contra os direitos humanos. Se Mahmoud Ahmadinejad já afirmou que o Holocausto foi uma ilusão, e o mundo sabe que não foi, não há como deixar isso passar em branco, mas também não se pode esquecer que o povo palestino, de origem islâmica, vive um Holocausto desce a criação do Estado de Israel em 1948, onde a sua ilegitimidade é lógica devido ao fato de seu território ter sido delimitado pela ONU em terras ocupadas por palestinos, levando assim os israelenses a promoverem uma matança a esse povo das mesmas proporções da que foi feita a eles durante a Segunda Guerra Mundial.
Por outro lado se o Irã desenvolve um trabalho nuclear em seu país, mesmo afirmado que não seja para fins bélicos, o representante dos estadunidenses não tem o direito de opinar sobre essa questão, como ele fez enviando uma carta à Lula antes da sua chegada ao Brasil, nem muito menos tentar limitar ou coibir essa ação iraniana, uma vez que os EUA são os que mais investem no desenvolvimento de armas nucleares. É óbvio que os habitantes da América do Norte têm medo de outro país ter um potencial à sua altura, ainda mais sendo ele muçulmano, o que torna o pavor insuportável, onde se usa todos os argumentos para por fim ao seu prosseguimento, independente da sua finalidade.
Se no nosso dia a dia temos que conviver com pessoas as quais não aceitamos seus pensamentos, opiniões e atitudes, no cenário político esse prática se repete, porém num nível elevado e com consequencias diferentes. Se por muitas vezes fechamos os olhos e toleramos determinados indivíduos para mantermos um clima de harmonia ou então para que numa situação conflitante tenhamos como manter uma neutralidade ou não conquistemos um inimigo a mais; vejo que os representantes do povo também assim agem.
Num momento desses deve se ter o máximo de cautela, não cair no radicalismo nem no extremismo e também não fazer parte do jogo sujo que muitos dos que vêm até aqui estão inseridos; muito menos abrir mão de seus valores; apenas fazer a cena cordial, porém muitas vezes falsa, da relação amigável entre as pessoas.
Marcelo Augusto da Silva - 27/11/09