segunda-feira, 9 de junho de 2008

O que restou da Mata Atlântica

Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1500 encontraram uma vasta floresta tropical que cobria 15% do seu território, ocupando toda a costa brasileira, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e regiões interioranas. Trata-se da Mata Atlântica, considerada patrimônio nacional pela Constituição Federal e pelo decreto 750/93 e que no ano de 1999 um outro decreto presidencial instituiu o dia 27 de maio como Dia da Mata Atlântica, comemorado na semana passada.
Hoje do total dessa vegetação sobrou apenas 7% de sua cobertura original. A devastação começou já no início da colonização com a extração do pau-brasil e veio se mantendo ao longo desses 508 anos, apresentando uma intensificação no século XX com a ocupação desordenada e a urbanização. Atualmente a maioria da área litorânea que era coberta pela Mata Atlântica é ocupada por grandes cidades, pastos e plantações. Porém, ainda restam pedaços da floresta na Serra do Mar e na Serra da Mantiqueira, localizadas no sudeste do Brasil.
Dentre as regiões brasileiras que compõem o Bioma Mata Atlântica, o Nordeste é, sem dúvida, a área mais ameaçada de extinção. Ao longo da colonização, vários fatores influenciaram direta ou indiretamente na drástica redução da Mata Atlântica Nordestina: o relevo litorâneo pouco acidentado, a extração e a comercialização indiscriminada de madeira, a monocultura da cana-de-açúcar, a especulação imobiliária e, especialmente, a falta de políticas públicas voltadas à conservação dos nossos recursos naturais, que convergiram na extinção quase que completa das nossas florestas costeiras.
Embora fragmentada, a Mata Atlântica assume um papel estratégico em nossas vidas, já que contribui de forma decisiva na regulação climática, interferindo diretamente nas variações de temperatura, umidade e regime de chuvas, na fertilidade e proteção dos solos, encostas e, especialmente, garantindo a perpetuação de mananciais que abastecem as populações humanas em sua área de abrangência.
Esse ecossistema apresenta a maior biodiversidade do mundo - maior que a encontrada na Amazônia pois é favorecida pela grande amplitude térmica que possui - abrigando em seu interior milhares de espécies de plantas, fungos e animais, que se constituem num banco genético de valor imensurável. Muitas destas espécies são endêmicas, ocorrendo exclusivamente em determinadas regiões.
Atualmente com a forte atuação de ONGs e a maior conscientização sobre a importância desses ecossistemas para a vida do planeta espera-se medidas governamentais mais decisivas e eficazes em respeito à preservação e ao combate à devastação, para que assim se possa manter o pouco que restou da Mata Atlântica.

Marcelo Augusto da Silva - 06/06/08

Dia 23 de maio – um ensaio para o 9 de julho

Um dia após o Corpus Christi, uma importante data, ao menos para os paulistas, passou com quase nenhuma citação pela imprensa. O dia de tão significativo que é, dá nome a uma das principais ruas do centro de São Paulo, justamente por ter ocorrido lá o episódio que irá marcar o início da Revolução Constitucionalista de 1932.
De 1894 a 1930 o Brasil viveu um período republicano chamado café-com-leite, onde os presidentes eram eleitos em alternância entre os governadores dos estados de São Paulo e Minas Gerais, os dois considerados os responsáveis pela economia nacional, um desenvolvendo a cultura cafeeira e outro a pecuária, respectivamente. Todo esse esquema de revezamento era sustentado pelo coronelismo, que através da fraude eleitoral, garantia o acordo e a vitória nas urnas dos mesmos.
Enquanto essa prática desleal e abusiva acontecia descaradamente vários movimentos sociais rurais e urbanos explodiam pelo país, e as elites de outros estados, que sentiam-se lesadas pela escolha de apenas esses dois estados, começam a se articular.
A intolerância chega ao seu limite em 1930, ano que Getúlio Vargas e o movimento tenentista nascido no Rio Grande do Sul, resolvem invadir a capital do Brasil e pôr fim a um sistema não condizente com a moral nem com o contexto social e político da época. Vargas que fora candidato à presidente naquele mesmo ano, mas não conseguiu a vitória devido às fraudes, não aceita o resultado das urnas que elegem Júlio Prestes (um paulista que quebra o rodízio entre os dois estados) e invade o Rio de Janeiro para depor pelas armas o presidente Washington Luís ainda no exercício do poder, que diante da ameaça não oferece resistência e renuncia ao cargo. Vargas instaura um governo provisório, cujo representante é ele mesmo, acabando com o Congresso, as Assembléias Legislativas e depondo os governadores de estados, substituindo-os por interventores federais que governariam até a promulgação de uma nova Constituição. No entanto essa Constituição não vinha nunca, dando ao governo provisório um caráter permanente.
A insatisfação paulista era grande, uma por ter um interventor de outro estado no comando, irritando a elite cafeeira que perderia privilégios, outra pela demora na aprovação da Constituição.
No dia 23 de maio de 1932 quatro estudantes, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo morreram em um confronto com as tropas getulistas ao tentar invadir o prédio da Liga Revolucionária - organização favorável ao regime - nas esquinas da Praça da República com a Barão de Itapetininga. Eles viraram mártires e suas iniciais batizaram o MMDC, entidade civil que se tornou símbolo da revolução e que alistava voluntários civis para a luta contra Vargas, e a data de suas mortes batizou a rua.
Pouco depois desse acontecimento, mais precisamente no dia 9 de julho de 1932, explode a Revolução Constitucionalista de 1932, onde paulistas enfrentam as forças federais de Getúlio Vargas.
Marcelo Augusto da Silva - 30/05/08

Para não mais esquecer do dia 13 de maio

“se você soubesse o valor que o preto tem tu tomava um banho de piche, branco e ficava preto também...
ile ayê - Paulinho Camafeu

No dia 13 de maio desse mês, poucas pessoas sabiam, mas comemorava-se 120 anos da assinatura da Lei Áurea, que deu a condição de liberdade aos escravos.
O fato ocorreu em 1888, um ano antes da Proclamação da República, mas a promulgação da lei não foi um ato tão democrático e tão humano com parece demonstrar ou como o ensino formal transmitiu durante muito tempo.
Anos antes à assinatura da lei já havia no Brasil um atuante movimento abolicionista, que inspirado nos franceses e ingleses, defendia as liberdades individuais e contava com a participação de jornalistas, políticos, poetas escritores e artistas. Junto a esse movimento uma série de leis, que aos poucos vão limitando a escravidão, começam a ser aprovadas, como a Lei Eusébio de Queirós de 1850 que proibia o tráfico negreiro; a Lei do Ventre Livre de 1871, que concedia a liberdade às crianças filhas de escravas nascidas daquela data em diante e a Lei dos Sexagenários de 1885 que declarava livres os negros acima de 60 anos, lei que beneficiou principalmente os donos de escravos pois estes se livravam dos custos de manter um cativo idoso e enfraquecido pela exaustão, favorecidos ainda pela expectativa de vida de um escravo chegava aos 40 anos de idade em média.
Mas porque de um momento para outro o país começa a pensar em leis que, gradativamente, vão contribuindo para a abolição? A grande questão na aprovação dessas leis, bem como a própria Lei Áurea, está na interferência maciça da Inglaterra que havia realizado a sua Revolução Industrial e, pensando unicamente em seus lucros, precisava cada vez mais de consumidores para seus produtos, e como escravo não recebe salário, era urgente transformá-los em assalariados. Além do mais fazia parte da mentalidade européia e de boa parte dos proprietários de terras no Brasil que a mão-de-obra assalariada é muito mais rentável que a escrava, uma vez que não se investe capital na aquisição de um empregado, nem se compromete em alimentá-lo, vesti-lo ou garantir sua saúde e moradia.
Analisando esse aspecto constata-se que a Lei Áurea foi mais um mecanismo de proteção à camada privilegiada do Brasil e também do estrangeiro. No momento de sua promulgação não se pensou numa política de inclusão dos negros recém-libertos, muito menos em dar garantia ao trabalho, à renda e aos direitos de cidadão; isso é bem claro na aprovação da Lei de Terras de 1850, que proibia a aquisição de lotes de terras no país sem qualquer aviso prévio ou mesmo pagamento à Coroa, e como a abolição era iminente, era mais do que necessário limitar o acesso dos negros à principal fonte de renda do país naquele momento, condenando-os assim a viverem nos subúrbios das vilas e cidades brasileiras sem as mínimas condições dignas de existência.
Anos de espoliação, preconceito e humilhação não conseguem ser apagados com um documento, tal como foi a Lei áurea, onde sua assinatura serviu mais como um subterfúgio que inocentava e perdoava o Estado português e o brasileiro pelo massacre cometido aos negros. Mais de um século após a sua assinatura não representou a liberdade do negro, tampouco o seu reconhecimento e o seu valor.
Mais do que lembrar dessa data é preciso mudar o pensamento da humanidade e entender que, antes e acima de tudo, o negro é muito mais que uma força de trabalho que se entregou na construção do país; é muito mais do que uma etnia que formou o povo brasileiro. É na verdade, além disso, tudo um povo digno, possuidor de uma riqueza cultural infinita, dono uma sagacidade inigualável de se manter vivo - no sentido mais amplo da palavra - diante das atrocidades cometidas contra ele e que iniciou o século 21 mostrando ao mundo que diferenças entre pessoas estão somente nas mentes pequenas de quem acredita que elas existem.

Marcelo Augusto da Silva - 23/05/08

Hollywood está ressuscitando defuntos

Já faz algum tempo em que heróis estão sendo resgatados pelo cinema americano. Junto deles se vê também filmes que fizeram sucesso em outros tempos voltarem às telas com uma nova roupagem. Tivemos Batmam, Homem-Aranha, Incrível Hulk, Quarteto fantástico para exemplificar alguns heróis e também Poseidon, Os Infiltrados, Cidade dos Anjos, Halloween, Um Beijo a Mais, Alfie, O Sedutor, como exemplo de filmes refilmados.
Não é novidade para ninguém que o cinema estadunidense não passa de uma indústria do entretenimento com a finalidade de lucrar vendendo diversão. Mesmo sabendo dessa mentalidade é perfeitamente normal todo o tipo de pessoa assistir a essas produções como o intuito de se divertir apenas.
Hollywood sempre apresentou novidades no mercado cinematográfico, criando ídolos e modismos. Mas quem prestar atenção nos filmes em cartaz no momento e nos que ainda vão estrear vai ver uma grande quantidade de heróis a serem exibidos na tela grande, todos eles com aquelas grandes campanhas de divulgação, lançamento e tudo mais. No entanto nenhum deles são criações novas, todos são sucessos do passado que voltam a dar suas caras nos cinemas. Dentre aqueles que vão estrear temos Homem de ferro, Agente 86, Speed Racer, Indiana Jones.
Para quem viveu sua adolescência em outras décadas esses personagens são o que há de melhor no gênero. Sem dúvida que eles fizeram parte de uma geração e possuíam toda justificativa de existência dentro do contexto daquele período como, por exemplo, o Super-Homem, que na condição de defensor da América não escapou aos apelos do patriotismo onde na Segunda Guerra Mundial o super-herói formou junto com os soldados as fileiras contra o império nazista, a pedido do então presidente Roosevelt, as histórias deste período mostravam um Super-Homem no campo de batalha contra o inimigo nº1 - Hitler.
Mas por que será que não são criados novos personagens e heróis ultimamente? Os criadores perderam a inspiração ou é mais fácil pegar algo pronto no fundo da gaveta?
Toda essa onda nostálgica também pode ter sido impulsionada pelo sucesso de um filme como foi, por exemplo, o Homem-Aranha que bateu recordes de bilheteria e que possivelmente pode ter incentivado os estúdios a pegarem carona em personagens já existentes.
Se outrora havia uma ideologia a ser defendida ou divulgada, mesmo que fosse a exaustiva peleja entre o capitalismo (divulgada como o bem pelos estadunidenses) e o socialismo (associado por eles como uma personificação do mal), hoje também há algo a ser defendido pelos estúdios de Hollywood como a luta entre o ocidente e o terrorismo do oriente médio. Nesse ponto pode estar a explicação da não criação de heróis que vencem a luta contra os muçulmanos, já que a Cruzada organizada por Bush no Iraque tem causado tanta impopularidade a ele e a seu país que nem o cinema com todos os seus efeitos, recursos e atrativos vai conseguir mudar a opinião pública. Tendo essa teoria como princípio pode-se compreender então que é melhor o cinema recriar mitos do que tentar criar um que não vai convencer nem mesmo as crianças.
Marcelo Augusto da Silva - 16/05/08

Os biocombustíveis e o preço dos alimentos

O forte investimento em biocombústíveis vem causando uma grande polêmica a respeito do assunto. A produção do etanol é uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis, é renovável e também diminui consideravelmente os problemas do aquecimento global, além de ser uma opção econômica para os países pobres da África e da América Central.
De acordo com essa afirmação a investida no setor teria todas as justificativas necessárias. Porém a elevação nos preços dos alimentos nos últimos meses vem resultando em várias críticas no cultivo de matérias-primas para a produção do etanol, e o Brasil foi um dos países a sofrer acusações, pois a produção de cana-de-açúcar brasileira vem a cada ano batendo recordes de produção onde o álcool, e também o açúcar, é exportado em grandes quantidades.
Organismos internacionais afirmam que a produção do etanol é a principal responsável pela o aumento nos preços dos alimentos e conseqüentemente pela fome mundial, que atinge 100 milhões de pessoas nos países mais pobres do mundo. A relação entre etanol e a alta dos preços é que a plantação de alimentos é substituída pela cana-de-açúcar para a produção do biocombustível.
No dia 02 de maio o novo relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, pediu a suspensão imediata dos investimentos em biocombustíveis, que segundo ele é a única responsável pelo aumento nos preços, afirmando que as metas para a produção do etanol pelos EUA e União Européia são ambiciosas.
É claro que não se pode atribuir somente uma causa para o problema, se bem que a plantação da cana gera o plantio de um só produto e um desestímulo a outras culturas, pois muitos produtores arrendam suas terras para usineiros. Porém há também outros fatores que contribuem para esse cenário de elevação de preços.
Algo importante que vem acontecendo é que muitos países vêm reduzindo o número de pessoas pobres que até pouco tempo não tinham acesso a uma alimentação de qualidade; essa camada agora pode adquirir uma maior quantidade alimentos, e a produção mundial não acompanhou o aumento desses consumidores. Esse grupo de pessoas que por muito tempo não se alimentavam adequadamente vem consumindo cada vez mais a carne vermelha - que gasta uma enorme quantidade de cereais na sua produção - além de outros produtos como o arroz e o trigo. Há também o problema das alterações climáticas que interferem no plantio gerando muitas perdas, diminuindo assim a oferta de produtos e causando um aumento nos preços.
Se por um lado a produção de cana no Brasil pode gerar lucro para o país, ela pode gerar também sérios problemas como esse do aumento dos preços, além de outros como a monocultura, as queimadas, o trabalho exaustivo dos bóias-frias, e o fim das pequenas propriedades.
Pelo que se pode perceber o debate vai se estender por muito tempo e as acusações com certeza não vão parar de vir. Muitas delas são justas, outras são meras retaliações, pois o Brasil começa a se destacar como um grande “salvador” na questão energética mundial, o que causa certo incômodo aos países ricos. E como disse o comentarista econômico Vicente Golfeto “não se chuta cachorro morto”.

Marcelo Augusto da Silva - 09/05/08