quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

As origens da comemoração do Natal

Novamente mais um ano vem se encerrando e junto com seu desfecho chega a festa natalina que nos causa aquela sensação de que a última foi há bem pouco tempo.
Muito das tradições do Natal vem se perdendo, e a cada ano ela se afirma mais como a festa do consumo, distanciando-se do seu sentido original - que é o religioso - influenciado principalmente pelo estrangeirismo que contaminou não só a religiosidade ocidental, mas impôs à nossa celebração natalina elementos que não nos pertence.
Mas a festa de Natal nem sempre foi comemorada no dia 25 de dezembro; na falta de qualquer documento que registrasse o dia do nascimento de Jesus Cristo os cristãos procuraram a princípio hipóteses fantásticas e contraditórias. Aliás, a data do nascimento de Cristo não teve importância para os primeiros cristãos que se preocupavam mais com a data de sua morte, bem como a de sua ressurreição, que na verdade é a sua vitória sobre a morte.
O cristianismo chegando ao Império Romano não foi aceito inicialmente e sim combatido pelos imperadores, principalmente durante os governos de Calígula, Cláudio e Nero (este muito conhecido por ter colocado fogo em Roma e acusar os cristão pela autoria do crime, justificando e intensificando assim a perseguição ao grupo). O motivo da hostilidade contra o cristianismo fica por conta de seus princípios igualitários irem na contramão da política e da organização romana que priorizava a hierarquia e a divisão de classes; além de que o monoteísmo colocava em questão o caráter divino do imperador, o que abalava ainda mais o império que já demonstrava sinais de fraqueza.
Com o tempo Roma percebeu que não era possível eliminar o cristianismo, e apesar das perseguições e da morte aos cristãos – comumente sendo executados nas arenas por animais selvagens – em 313 o imperador Constantino publica o Edito de Milão que concede liberdade de crença e culto aos cristãos. Em 391 o imperador Teodósio torna o cristianismo religião oficial romana.
A data do dia 25 de dezembro foi escolhida para ser comemorada como nascimento de Jesus por já ser uma data festiva em Roma, a qual se comemorava a festa do Sol, uma festa pagã. É justamente no século IV, ano da liberdade e da oficialização do cristianismo, que a celebração nessa data em vigor.
Na ocasião da institucionalização do cristianismo boa parte da população romana já se convertera a ele, no entanto a escolha de tal data talvez possa ter ocorrido como forma de manter uma tradição romana ou então como sendo uma maneira de agregar ainda mais fiéis em torno da religião, uma vez que a intenção dela é obter um maior número de adeptos possíveis em torno de sua crença. Há também uma idéia de que a escolha do 25 de dezembro seja uma espécie de “sincretismo” ou uma “associação de valores espirituais e religiosos”, já que são encontradas citações de que o menino Jesus foi uma “luz para iluminar os gentios” relacionando a presença de Cristo na Terra ao sentido da funcionalidade do astro que é o responsável pela emanação de luz e calor, elementos que possibilitam a vida na Terra.
O mais importante de tudo é que a festa representa um momento de harmonia e reflexão; serve para todos nós nos avaliarmos como seres humanos, assumirmos nossas falhas e pensarmos numa forma de viver numa sociedade mais justa, sem diferenças e discriminações.
Marcelo Augusto da Silva - 05/12/08

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Zé Rodrix no palco para ninguém

“Todo artista tem de ir aonde o povo está”
Bailes da vida – Milton Nascimento

É muito comum ouvir o rio-pardense se queixar da falta de opções de lazer ou da carência de eventos culturais em nossa cidade, o que não é um fato isolado, já que muitos municípios da região também sentem essa falha. Ausência de um programa direcionado, falta de atenção dos órgãos competentes ou uma característica de nossa terra; todas essas hipóteses podem servir de explicação para essa questão, que aparentemente teria uma fácil solução.
No entanto algo questionável ocorreu na sexta-feira dia 21, pois São José teve uma atração cultural de grande vulto e pouquíssimos ficaram sabendo.
Promovido pelo futuro prefeito de São José - que declaradamente disse através do apresentador do evento que o show em si já era parte integrante do dinamismo que ele havia prometido - João Luís Cunha usou o espaço público do Epidauro e trouxe para cantar de graça o conceituado cantor e compositor Zé Rodrix, que dividiu o palco com seu companheiro de composição Tavinho, outro grande nome da música brasileira.
Zé Rodrix integrou em 1966 o conjunto Momento 4uatro, com que se apresentou no III Festival de Música Brasileira da TV Record em 1967. No início dos anos 70 foi integrante do Som Imaginário, e continuou atuando como compositor. "Casa no Campo", música que abriu o espetáculo no Epidauro, é uma composição sua e de Tavito, que ganhou o festival de Juiz de Fora em 1971 e foi gravada com grande sucesso por Elis Regina. Atuou também ao lado de Sá e Guarabyra, trio que lançou o segmento rock rural, onde teve um CD gravado ao vivo recentemente. Integrou também o grupo pré-punk Joelho de Porco.
Mas fatalmente o descaso com o público ou má organização deixou a apresentação de um artista com um histórico musical desse nível passar em branco. As pouquíssimas pessoas presentes no local não sabiam quem iriam assistir, comprovando que o evento não teve a mínima divulgação. Dentre aqueles que ali estavam ouvia-se a pergunta sobre quem iria se apresentar passar de um para outro; logo voltou a resposta que seria Zé Rodrix . A notícia transmitida boa a boca dizia que o show estava marcado para as 20h00min., porém ela chegou quase 21h00min., ou seja, uma hora depois, e nada indicava que ele iria se iniciar. Lá pelas 21h30min. os poucos que ainda aguardavam se cansaram e foram deixando a arquibancada, fazendo com que ela ficasse ainda mais vazia. Às 21h40min. começa a chover e nada do espetáculo começar. Quase 22h00min. enfim o músico entra no palco e ele e seus acompanhantes tocam para praticamente ninguém.
Poucas são as vezes que as pessoas têm o privilégio de assistir um grande show como esse numa praça pública. Numa cidade onde há pouco a se freqüentar, quando algo acontece não é prestigiado É lamentável ver uma oportunidade dessa ser perdida por muitos. Creio que todos gostariam que isso não ocorresse novamente e que continue havendo outros eventos, melhor ainda se forem sem propósito político, para toda a população poder participar.
Marcelo Augusto da Silva - 28/11/08

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Zumbi dos Palmares e a Consciência Negra

“Salvei minha pátria. Vinguei a América... Nunca mais um colono ou um europeu porá os pés nesse território com o título de amo ou proprietário.”
Jean-Jaques Dessalines

O ano de 2008 apresentou um aumento de 164% no número de cidades que comemoraram o feriado da Consciência Negra no dia vinte desse mês. Isso pode representar uma maior preocupação com essa parcela da sociedade, ou então significar que muitos municípios pegaram carona nessa onda e também decretaram feriado, esquecendo-se, portanto da conscientização que se deveria haver sobre o relacionamento entre as etnias.
Muitos foram os movimentos aqui no Brasil ou em outro local das Américas que enfrentaram a escravidão instaurada pelo europeu. Como exemplo temos o autor da frase que ilustra o início desse texto, que expulsou os franceses e proclamou a independência de seu país, o Haiti.
O Dia da Consciência Negra é celebrado nessa data por ter a ver com Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, símbolo da oposição e defesa dos escravos no Brasil diante da dominação branca no período em que éramos uma colônia.
Zumbi no Brasil representa o expoente na luta de um povo que foi escravizado, massacrado, dizimado e que hoje ainda pugna para conquistar o seu reconhecimento. Sua atuação no Quilombo de Palmares serve como inspiração aos negros na conquista de seus direitos.
Os quilombos eram comunidades formadas por escravos fugidos e até por pessoas livres que não aceitavam o modelo colonial. Neles, os quilombolas, nome dado aos habitantes dos quilombos, procuravam resgatar parte de suas tradições e buscavam manter um nível de vida igualitário. O mais famoso deles, o Quilombo de Palmares, se localizava no atual estado de Alagoas, que na verdade era uma união de mais de dez quilombos que resistiram e sobreviveram aos ataques do governo e dos donos de escravos durante quase todo o século XVII. Palmares chegou a ter entre vinte e trinta mil habitantes, um número altíssimo comparado à população total do Brasil na época.
Foi em Palmares que surgiu a liderança de Zumbi, que à frente do quilombo foi a força motriz na resistência aos ataques inimigos e reuniu os quilombolas em torno do sonho de se verem livre da escravidão.
Palmares foi atacado durante toda a sua longa existência; o governo por sua vez desencadeou uma verdadeira guerra contra a comunidade, que além de concentrar um grande número de escravos fugidos, servia de exemplo para a formação de outros pela região. Muitos dos ataques do governo foram derrotados pelos quilombolas, o que fazia as lideranças governistas e os senhores de escravos a aumentarem ainda mais o ódio e as ofensivas aos negros e a Palmares.
Zumbi em Palmares passa a se o elemento principal contra a opressão dos brancos. Apesar de todo o investimento contra o quilombo a sua liderança garantia a sobrevivência da comunidade e as vitórias a cada batalha.
Sobre a sua morte não há, no entanto, uma documentação que comprove a sua causa, ou seja, não se sabe se ele foi morto ou suicidou-se. O que se tem é a confirmação de que ela ocorreu no dia 20 de novembro de 1695, dois anos após a destruição completa de Palmares.
Por esse fato é que nessa data se comemora o Dia da Consciência Negra, e essa escolha serve para mostrar ao Brasil e ao mundo que assim como Zumbi incorporou uma causa, hoje todos os negros continuam envolvidos em torno desse mesmo ideal, até que o mundo os encare com dignidade e deixem de levar em consideração questões tolas e insignificantes como diferenças de cor.
Marcelo Augusto da silva - 21/11/08

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A República dos bananas

Nessa semana em que comemoramos o aniversário da Proclamação da República no Brasil, lembrei de algo que costuma me chamar a atenção. Sempre que estou dando aulas de História do Brasil na 8º série do Ensino Fundamental, cujo conteúdo compreende o período do começo do século passado até a atualidade, sou indagado por muitos alunos sobre quem foi o melhor presidente que o Brasil já teve.
Difícil responder uma pergunta dessas sem deixar a parcialidade de lado, mas tento encontrá-la através do olhar crítico, e como se eu estivesse em outro contexto. Difícil também é achar alguém ou algo perfeito em toda a sua plenitude, uma vez que a perfeição é uma utopia, embora seja perseguida por muitos.
Mas numa rápida olhada no processo republicano no Brasil percebo a confusão que é nossa vida política, a começar pela própria Proclamação da República, que só foi realizada para manter privilégios de alguns grupos e, o que é pior, sem a participação popular, onde o brasileiro acordou no dia 15 de novembro de 1889 sem saber que vivia a partir daquele momento num país republicano. Sem falar que os primeiros presidentes que tivemos eram todos militares, o que torna a nossa república ainda mais incoerente, já que ela deveria ser representada por civis eleitos pelo sufrágio universal.
Depois desse tropeço inicial tivemos a república coronelista que revezava o poder federal entre os governadores de São Paulo e Minas Gerais eleitos através das fraudes eleitorais, que só terminou, vejam só, com o golpe de Getúlio Vargas, que se manteve como presidente durante quinze anos através de mais outros dois golpes, e que por ironia do destino só deixou o governo graças a um outro golpe.
Após o fim da Era Vargas outros fiascos aconteceram no nosso cenário político, como Jânio Quadros que depois de se eleger sob a promessa de varrer a corrupção do Brasil renunciou ao cargo poucos meses após ser empossado, e Jango seu vice que assumiu o controle do país, foi derrubado por outro golpe, dessa vez um militar, que durou mais de vinte anos e dispensa comentários.
Aliás, depois de todo esse período ditatorial, quase que o país se vê refém de uma continuidade do militarismo, pois no dia de sua posse, Tancredo Neves o primeiro presidente civil após duas décadas, é vitimado por uma doença que o leva à morte meses depois.
Nesse momento o Brasil começa a viver novamente em uma democracia, mas no fim da década de oitenta a Rede Globo lança seu candidato e fazendo a cabeça dos eleitores o elege, embora nenhum brasileiro soubesse de onde vinha nem quem era o esculacho chamado Collor. No entanto como este não atende os privilégios das classes dominantes e se envolve nos mais estapafúrdios casos de corrupção, a mesma Rede Globo urdiu todo um mecanismo até conseguir arrancá-lo do poder.
Permeando esses presidentes tivemos outros que devem ser lembrados pelas suas bizarrices como JK que abriu o país para o investimento externo, FHC que privatizou o país e Lula, o mais recente deles, que sendo uma referência na esquerda brasileira se une à direita e ao assumir a presidência dá um continuísmo ao governo anterior, o qual ele tanto criticava.Tudo isso faz com que a resposta sobre quem foi o melhor presidente do Brasil se torne quase impossível de responder. É claro que há exceções nesses casos citados não existindo somente erros em seus governos; certos presidentes merecem o reconhecimento pelo que fizeram, se bem que, há por outro lado algo que os desabone. Minha resposta então é afirmar que o Brasil não teve em nenhuma ocasião um presidente admirável na sua totalidade, mas procuro dizer que dentre aqueles que nos comandaram alguns fizeram algo de bom para o país e isso deve ser lembrado, e esses seus acertos servem para mostrar que não se deve desacreditar nem abandonar a política, para que assim um dia, quem sabe, teremos um excelente presidente.
Marcelo Augusto da Silva - 14/11/08

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Direitos Humanos: sessenta anos de que?

O ano de 2008 comemorou muitas datas importantes. Dentre elas podemos destacar os duzentos anos da vinda da família real para o Brasil, os cento e vinte anos da “abolição” da escravidão e os quarenta anos do ano de 1968 que foi marcado por protestos e manifestações contra a ordem mundial vigente na época. Porém um aniversário pouco foi lembrado, talvez por poucos saberem da sua existência ou então pelo fato de não darem o valor a ele merecido. Trata-se dos sessenta anos da criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Inspirado na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, criado durante a Revolução Francesa, a ONU (Organização das Nações Unidas) adota o documento como forma de garantir a todos os seres humanos direitos inerentes à sua própria existência, que até então não haviam sido respeitados como a liberdade e o direito à vida. Por conta de arbitrariedades estatais e governos despóticos não havia restrições ou mesmo limites para o uso da violência, da tortura, da intolerância religiosa e de prisões e condenações arbitrárias.
O ano do decreto dos Direitos Humanos, 1948, coincide com o pós-guerra e a ONU como sendo um organismo mundial o abraça para colocar um basta em todas as formas de desrespeito contra a humanidade e também para evitar que não ocorra novamente o acontecido durante a Segunda Guerra Mundial em que o mundo assistiu a crueldade e o assassinato de mais de seis milhões de judeus em campos de extermínio e concentração comandados pela Alemanha nazista.
Passado seis décadas após a sua decretação vemos que hoje ele faz parte de mais um montante de belas leis, precisas e bem elaboradas, que não passam do plano escrito.
Se no nível internacional vemos o seu fracasso tal como é o caso do massacre promovido a milhares de civis pelas tropas estadunidenses e inglesas no Iraque, e do uso da tortura, evidenciada em casos de denúncias em Abu Graib, onde fotos reveladas à imprensa mostram os americanos aplicando seus mais novos métodos dessa prática abominável, nos estados e municípios brasileiros ocorre também o desrespeito às leis básicas, com casos de torturas, extorsões, agressões, humilhações, amontoamento de prisioneiros, diferença no tratamento e julgamento de acusados.
Embora muitos questionem os Direitos Humanos, eles prezam primeiramente pela vida, independente de quem for e procura não devolver o desprezo e a violência àqueles que não respeitaram o seu semelhante.
A Declaração dos Direitos Humanos deveria ser acima de tudo um acordo de convivência harmoniosa entre a comunidade internacional, que independesse de uma escritura ou de uma legislação; deveria ser um consenso natural, espontâneo e ser simplesmente seguido e respeitado.
Marcelo Augusto da Silva - 07/11/08