quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nova versão de um problema antigo

Ir ao cinema durante os meses de dezembro e janeiro com a intenção de ver algum lançamento que não seja uma superprodução ou então um filminho inocente é uma investida perdida, pois nessa época só há filmes que se encaixam nesses estilos.
Como não há mais nada interessante resolvi assistir a megaprodução do momento Avatar do diretor James Camerom, que dispensou milhões de dólares em investimentos e tem lotado as salas de todo mundo. Assim fui com a maior despretensão, já preparado para ver algo que não seria nenhuma novidade.
De fato o filme segue o velho esqueminha dos roteiros previsíveis, os quais conseguimos saber o final já nos primeiros minutos de exibição e com recursos computadorizados e efeitos especiais que o deixam mais se assemelhando a um vídeo game de última geração.
O que me chamou a atenção, apesar do enredo tosco, é a versão nova de algo antigo que esse longa metragem trabalha. Explico: a história se passa no futuro, num planeta chamado Pandora, onde os seres humanos o invadem com o objetivo, é claro, de explorar algum recurso que lhe traga bons lucros, que nesse caso é um minério que lá existe em abundância, porém o inconveniente são os nativos desse mundo que não aceitam a invasão humana e lutam como podem para manter o inimigo afastado. Um soldado deficiente é enviado numa missão especial àquele lugar e tem o seu avatar criado – criatura feita em laboratório que se sintoniza com o ser humano numa espécie de simbiose, onde esse humano enquanto dorme numa cápsula passa a ser um elemento nativo, denominado assim de avatar – o qual penetra na paisagem natural de Pandora, uma floresta colorida e habitada pelos mais estranhos seres, cujo aspecto mais se assemelha a uma capa de disco de banda progressiva da década de 1970 e assim passa a conviver com os seres de Pandora.
Do outro lado há um outro militar, seu superior, muito parecido com um misto de Rambo com o boneco Max Stell, que deseja a todo custo conquistar as reservas minerais que são habitadas pelos nativos do planeta. Este faz uma proposta ao militar deficiente para trazer o maior número de informações sobre o local e acabar dessa maneira com os nativos. Nesse meio tempo o avatar do militar começa a envolver com os nativos e a ter o mesmo sentimento de amor à natureza, suas ligações com ela e o seu senso de preservação, o que faz ele a não ficar do lado dos terrestres.
Em meio a isso tudo, apesar da mesmice da trama onde o personagem tirano se redime e fica do lado dos oprimidos, o curioso é que por se tratar de um filme atual e futurista o velho problema que vemos acontecer durante toda a nossa história ainda acontece, como a invasão de territórios já habitados, o não respeito às diferenças, a intolerância e a não aceitação daqueles que são diferentes devido ao interesse de enriquecimento. Dessa vez ele é fora da Terra, provavelmente pelo fato de não mais haver onde explorar e a quem dominar, mas independente do local os acontecimentos são os mesmo; o massacre é o mesmo.
O que fez o roteirista e o diretor desse filme foi mudar de tempo algo que não é novidade, tirou o problema do passado e do presente e o mandou para o futuro e para um local distante. Quanto a mentira de que alguém pode pensar no outro e que os que são molestados podem inverterem o jogo foi mantida, talvez para mascarar essa tendência ambiciosa e preconceituosa, tão presente e característica no povo que realizou o filme.


Marcelo Augusto da Silva - 08/01/09

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Morreu o sonhador, não o sonho

Oh! Nem o tempo amigo, nem a força bruta, pode um sonho apagar
Canção do Novo Mundo – Beto Guedes

Há vinte e nove anos atrás, no dia 08 de dezembro, uma tragédia deixou o mundo um pouco mais sem graça. Vítima de uma insanidade de um fã John Lennon não pôde continuar a trilhar o seu caminho em busca de um mundo de paz.
Se ele foi sonhador demais ou utópico demais ficou, na pior das hipóteses, o exemplo de que se todos fizerem a sua parte e juntos cantarem a mesma canção, há possibilidades de melhora.
É muito arriscado analisar a personalidade de John Lennon e também da sua carreira artística em poucas palavras, pois há uma quantidade imensa de acontecimentos que podem levar a diversas reflexões sobre ele. Com sua vida artística projetada com os Beatles o artista se destacou junto Paul McCartney nas composições do grupo que fizeram um sucesso até hoje inigualável. Certamente ele percebeu os rumos que a banda estava tomando e resolveu buscar aquilo que o satisfazia e não se deixando cair na trivialidade que muitas bandas atingem após uns anos de existência; a própria história dos Beatles mostra uma evolução em seu trabalho, passando das baladas de um rock melódico a um trabalho mais maduro e engajado concretizado em álbuns históricos no estilo psicodélico como o Revolver (1966), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), Álbum Branco (1968) e Yellow Submarine (1969). Possivelmente essa evolução levou Lennon a se motivar a ir mais além, partindo para uma carreira solo e não ficar restrito a um grupo que pudesse lhe limitar ou então que não se sustentaria por muito tempo, independentemente da sua qualidade, e da coesão que sempre houve entre seus integrantes.
Polêmico por muitas vezes, como na ocasião em que afirmou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo e ousado ao se tornar um ativista contra a Guerra do Vietnã, a qual os EUA estavam travando e sendo assim investigado pelo governo Nixon que tentou deportá-lo, procurou disseminar no mundo a paz em forma de música. Lennon incentivou a todos a sonharem, a lutarem por esse sonho e enfim a realizarem esse sonho. John Lennon se coloca hoje entre as grandes personalidades que se destacaram por não se acomodarem diante de uma realidade insuportável; faz parte daquele seleto grupo de pessoas que não se encaixam no que é imposto e conseguem achar o canal apropriado para colocar em prática aquilo que desejam.
É claro que sua morte prematura e em condições adversas como ocorreu o projetou ainda mais e lhe garantiu um número ainda maior de fãs, muitos deles sem a mínima noção de quem ele foi e do que ele propunha. Porém independente daqueles que idolatram quem já se foi e assim transformam a execução de suas composições num grande clichê, John Lennon deixou a sua mensagem, que continua inspirando as pessoas e as conduzindo a um nível em que se tenta atingir a harmonia. Embora ironicamente vítima da violência muito combatida por ele, seu sonho de paz ainda continua vivo num mundo bem mais caótico daquele que ele queria mudar nas décadas de 1960 e 1970.


Marcelo Augusto da Silva - 11/12/09

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entre estadunidenses, israelenses e iranianos

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho, você sabe que a gente precisa entrar em contato
Por quem os sinos dobram – Raul Seixas

Penso que um chefe de Estado deva manter uma postura diplomática com os chefes de outros países, mas não que isso expresse que ele tenha curvar-se diante deles e deixar de lado sua opinião e conduta. Se nessa tivemos a visita de Mahmoud Ahmadinejad - presidente do Irã, antiga Pérsia, uma das grandes civilizações do passado – não significa que o Brasil concorde com a ideologia iraniana ou com a do seu representante. Porém não podemos esquecer que tivemos também no país a presença de George Bush, representante do imperialismo yankee, e o presidente de Israel, Shimon Peres, o que deveria dividir as críticas contra Ahmadinejad entre eles ou então tentar entendê-la como parte de uma relação cordial entre nações, sem que elas interfiram no nosso cotidiano nem que subjugue nosso povo.
Não se deve concordar nem muito menos apoiar e bajular quem não respeita outros grupos sociais e nações ou então quem viole e vai contra os direitos humanos. Se Mahmoud Ahmadinejad já afirmou que o Holocausto foi uma ilusão, e o mundo sabe que não foi, não há como deixar isso passar em branco, mas também não se pode esquecer que o povo palestino, de origem islâmica, vive um Holocausto desce a criação do Estado de Israel em 1948, onde a sua ilegitimidade é lógica devido ao fato de seu território ter sido delimitado pela ONU em terras ocupadas por palestinos, levando assim os israelenses a promoverem uma matança a esse povo das mesmas proporções da que foi feita a eles durante a Segunda Guerra Mundial.
Por outro lado se o Irã desenvolve um trabalho nuclear em seu país, mesmo afirmado que não seja para fins bélicos, o representante dos estadunidenses não tem o direito de opinar sobre essa questão, como ele fez enviando uma carta à Lula antes da sua chegada ao Brasil, nem muito menos tentar limitar ou coibir essa ação iraniana, uma vez que os EUA são os que mais investem no desenvolvimento de armas nucleares. É óbvio que os habitantes da América do Norte têm medo de outro país ter um potencial à sua altura, ainda mais sendo ele muçulmano, o que torna o pavor insuportável, onde se usa todos os argumentos para por fim ao seu prosseguimento, independente da sua finalidade.
Se no nosso dia a dia temos que conviver com pessoas as quais não aceitamos seus pensamentos, opiniões e atitudes, no cenário político esse prática se repete, porém num nível elevado e com consequencias diferentes. Se por muitas vezes fechamos os olhos e toleramos determinados indivíduos para mantermos um clima de harmonia ou então para que numa situação conflitante tenhamos como manter uma neutralidade ou não conquistemos um inimigo a mais; vejo que os representantes do povo também assim agem.
Num momento desses deve se ter o máximo de cautela, não cair no radicalismo nem no extremismo e também não fazer parte do jogo sujo que muitos dos que vêm até aqui estão inseridos; muito menos abrir mão de seus valores; apenas fazer a cena cordial, porém muitas vezes falsa, da relação amigável entre as pessoas.
Marcelo Augusto da Silva - 27/11/09

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A glória dos perseguidos

O novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios, tem lotado as salas de cinema do país e levantado várias discussões a seu respeito, dividindo opiniões onde se afirma em se tratar de um thriller de violência ou então algo muito mais profundo.
Estrelado pelo galã de Hollywood Brad Pitt, dirigido pela primeira vez por Tarantino, e que surpreendeu mais uma vez ao provar que ele não realiza somente papéis de playboy assim como é a sua imagem tida por muitos, o longa segue bem a linha do diretor com seus toques de extrema violência, embora em menor proporção comparado aos seus trabalhos anteriores, referências aos filmes de western e de lutas, que fizeram a sua cabeça quando criança, e também não esquecendo de deixar bem evidente o seu fetiche por pés femininos. Analisando essa peculiaridade no seu estilo de filmagem pode-se dizer que Quentin Tarantino e Woody Allen se encontram ao colocar suas próprias vidas em seus filmes.
O diretor também foi criterioso ao escolher o elenco, principalmente no que diz respeito aos que interpretam os oficiais ou membros de outra patente do nazismo, que encarnaram toda a personalidade arrogante, prepotente e nojenta daqueles que fizeram parte desse movimento.
Ambientado na França ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, o enredo gira em torno de um grupo de “caçadores de nazistas”, liderado por Aldo Raine, interpretado por Brad Pitt, que devolvem todo o terror e truculência àqueles que agiram contra os judeus. Não lembrando somente do massacre contra os judeus, a obra faz menção a outros grupos que sofreram duras perseguições por conta de outro povo dominador, como os índios da América do Norte, representados por Aldo Raine que tem descendência apache e exige um número de escalpo de nazistas de cada integrante de seu grupo e também aos negros que foram duramente perseguidos pela ideologia nazista durante o período em que ela vigorou.
Diferentemente de outros filmes que abordam a matança contra os judeus, Bastardos Inglórios mostra um final que muitos gostariam de ter visto acontecer para os representantes máximos do nazismo; explorando bem esse assunto o filme penetra no sentimento de ódio que se tem em relação aos que covardemente abusaram de grupos indefesos e que outros tantos teriam a vontade de externá-lo. A violência tarantinesca foi usada a favor de todos aqueles que queriam ver os nazistas sofrerem na pele aquilo que foi feito contra as minorias. A História verdadeira abre um precedente para dar espaço a um destino mais cruel, e por que não dizer mais justo, àqueles que proferiram uma ideologia racista e preconceituosa e a colocaram em pratica com toda naturalidade.
Como Arnaldo Jabor contou em um artigo recente em que ele na sua juventude buscava a ilusão no cinema, Tarantino usou desse recurso e fez uma pessoa se vingar em nome de todos daqueles que um dia foram desumanos.


Marcelo Augusto da Silva - 20/11/09

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Tiros na podridão

Já não é mais novidade nenhuma os casos em que algum estadunidense entra alucinado em algum prédio e dispara vários tiros contra aqueles que lá se encontram, como se seu ódio e insatisfação fossem também atingidos e mortos pelas balas. Há poucos dias atrás tivemos uma dobradinha em que ocorreram dois desses fatos, que embora tendo motivos diferentes, mostram claramente o desespero de uma nação.
A vida moderna e seu modelo capitalista praticamente obrigam todos a serem iguais, de maneira que o comportamento, o pensamento, a vida e principalmente o patrimônio seja o mesmo, e nessa tresloucada busca nem todos conseguem ser aquilo que a sociedade de consume exige.
Os atentados em escolas ou universidades são os exemplos mais comuns dessa crise, reforçada ainda pela idolatria que aquele povo tem em relação às armas de fogo e a facilidade em obtê-las. O jovem acuado, pressionado e obrigado a ser algo que ele não quer ou que ele não consegue, se frustra, e a sua mente não suporta isso. Como a cultura dos videogames e do cinema é explodir tudo e acabar com todos, isso é feito na vida real.
No atentado ao quartel no Texas o atirador possivelmente foi motivado pela questão religiosa e cultural, uma vez que ele sendo um integrante do islamismo e tendo sido convocado a lutar no Afeganistão, isso representou uma carga pesada demais para ele. Supostamente deve ser um conflito um muçulmano viver nos EUA e ter de conviver com a herança da Doutrina Bush que determina a intolerância aos islâmicos e a invasão ao Oriente Médio. Já o segundo atirador não suportou ver uma empresa lhe sugar anos de sua e depois virar-lhe as costas; resolveu o seu conflito, ao menos que interno, a balas. Não aceitando nem concordando com essas atitudes, ela passa a sensação de que é como se todos vivessem numa enorme panela de pressão cheia de cobranças, e em que determinada hora ela explode.
Como o modo de vida estadunidense é imposto às pessoas ou então é desejado e copiado por elas, na ilusão de que uma vida recheada de produtos, bens e mercadorias lhe garantam a felicidade plena, é perigoso esse comportamento se alastrar e tomar conta de populações que se encontram em outros países. Vemos hoje muitos buscarem desenfreadamente uma felicidade que não é nunca atingida, sendo que para alcançá-la o individuo tem que ter tudo e ser perfeito em tudo, não só profissionalmente e financeiramente, mas também fisicamente onde se ele não tiver os padrões de beleza a frustração e a depressão cairá como uma pedra de toneladas sobre sua cabeça, fazendo dele um ser extremante infeliz e desgostoso.
Hoje esse assunto é bem claro para muitas pessoas e é discutido por muitos profissionais de diversas áreas, num esforço e cuidado para que isso não atormente mais o ser humano e lhe dê condições de viver uma vida de qualidade e não de cobranças e metas a cumprir. Todos somos falíveis, temos nossas limitações e nossa própria personalidade, nos colocar num molde pré-fabricado e com a intenção de nos condicionarmos a ele é uma tarefa um tanto quanto complicada ao ser humano que ainda mal consegue conhecer e entender a si próprio.
Marcelo Augusto da Silva - 13/11/09