quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Diante ao caos, o refúgio



Quantas bocas se fecharão, quando a bomba beijar o chão da cidade em chamas?
Cidade em Chamas - Engenheiros do Hawaii


            Com motivos estapafúrdios e irreais que agridem o nosso senso crítico e com consequências desastrosas e de níveis alarmantes, as guerras são uma constante na História da humanidade.
            Em meados do século passado, razões econômicas e hegemônicas causaram o início da Guerra Fria (1947-1991), um conflito basicamente ideológico, que levou os EUA a entrar numa disputa com a extinta URSS, onde ambos buscavam maior área de influência. Em meio a essa contenda que dividia o mundo em duas partes, ocorreu a Guerra do Vietnã (1959-1975), na qual a parte sul e capitalista do país entrou em combate com a porção norte socialista; dessa forma, os EUA, aliado do Vietnã do sul, temendo que mais um Estado se alinhasse ao socialismo, interviu no conflito, causando as atrocidades inerentes a uma guerra e peculiares do comportamento estadunidense, o qual em nome de sua dominação ideológica usa, se necessário, meios sórdidos e inescrupulosos. O saldo dessa guerra infame foi um total de cinquenta e oito mil estadunidenses mortos; para o Vietnã o desastre foi maior: cerca de três milhões de mortos entre soldados e pessoas da população civil.
            Após trinta e oito anos do fim da Guerra do Vietnã e vinte e dois do fim da Guerra Fria, Ho Van Than, um senhor de 82 anos, e seu filho Ho Van Lang de 41 anos, foram encontrados dentro de uma floresta do Vietnã, vivendo de acordo com as condições naturais do ambiente. O pai se refugiou na selva depois que um bombardeio em sua aldeia matou sua mulher e dois de seus filhos. Embora ambos tivessem a consciência de que o conflito há muito tinha se encerrado, Ho Van Than - que já havia sido encontrado por outro filho, o qual já mantinha contato desde a década de oitenta - se recusava a ser retirado do local. O resgate só foi concretizado devido às más condições de saúde em que o pai se encontra.
            Esse episódio pode trazer ao debate grandes assuntos referentes às questões bélicas e também sociais. A dupla habitando há mais de quarenta anos uma floresta, onde o filho praticamente viveu toda sua existência nessa condição, comprova a gravidade das batalhas, pois os dois numa atitude de pavor, lá se instalaram e não manifestaram nenhuma atitude de abandono do local. A vida dos dois em condições em consonância com a natureza - porém incompatíveis com o comportamento contemporâneo - mostra que é possível, apesar das restrições e do desconforto, viver com muito pouco.
            Evidentemente, diante da barbárie a qual os dois presenciaram, é possível afirmar que a solução foi viver de forma isolada e com poucos recursos, condição preferível perante uma vida atrelada a uma insana disputa pelo controle econômico.
            Diante do ocorrido, há de se constatar que tão grave quanto invadir, massacrar e pilhar o território alheio, seria nesse momento não respeitar a opção de escolha por uma vida reclusa e impor uma socialização, principalmente do filho que praticamente é uma nativo desse ambiente.  Uma vez adaptados e acostumados à vida nos moldes primitivos, a introdução e reintegração à sociedade pode ser vista como o mesmo processo desrespeitoso de imposição cultural característico do período colonial.
            Não fosse a debilidade física enfrentada pelo pai, certamente ambos continuariam a viver de modo isolado, concluindo dessa maneira que é preferível uma vida de forma simples e digna junto à natureza, a um modo de viver ao meio da insensatez do mundo contemporâneo.

Kim Phuc de 9 anos correndo em meio ao povo desesperado em 08 de Junho de 1972, após um avião norte-americano ter bombardeado a população de Trang Bang com napalm e Ho Van Lang de 41 anos sendo resgatado no dia 08 de agosto 2013.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O bullying como ele é




“Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito".
Isak Dinesen – escritora dinamarquesa

Há algum tempo a sociedade em geral e o poder público têm promovido um debate crescente em relação ao bullying, bem como ações de esclarecimento, prevenção e punição contra essa prática. De fato, o combate a essa atitude é de extrema necessidade, visto que são muitos os que sofreram e ainda sofrem com a perseguição em sua infância e adolescência; pode-se até afirmar que tardou-se a tonar o assunto evidente, devido aos malefícios que ele traz ao indivíduo e à sociedade.
No entanto, é preciso destacar que o termo exige ser aplicado de forma correta e em momento oportuno, uma vez que vemos hoje ele ser usado à revelia, tornando-se desgastado e consequentemente sem uma direção específica. Embaso tal afirmação em experiências que presencio no contato com crianças, adolescentes e muitos profissionais que lidam com essas faixas etárias, os quais insistem em qualificar quaisquer atitudes de desentendimento ou conflito de relações como bullying. Na realidade o que caracteriza um ato como tal é uma perseguição contínua, uma humilhação constante, uma violência física, verbal ou moral de cunho preconceituoso, a qual retira a vítima do convívio social sadio, colocando-a numa situação isolada e longe do desenvolvimento adequado, podendo transformá-la num adulto inseguro e emocionalmente abalado. Leandro Karnal, professor de História da UNICAMP, já debateu o esvaziamento do termo, afirmando que o que era “chatice” ou “implicância” no passado, começou a ser tratado atualmente como bullying.
Junto com a preocupação do problema do bullying e os programas de informação e de combate à sua prática, o cinema investiu no assunto, aproveitando-se do momento para realizar uma série de filmes que debatem esse comportamento e suas consequências, muitos deles explorando o tema de maneira deturpada, com fins sensacionalistas e econômicos, deixando de lado a seriedade desse mal intrínseco das relações.

No caminho oposto a esse cinema banalizado e interesseiro, em 2012 foi realizado o filme Depois de Lúcia, uma produção mexicana dirigida por Michael Franco, que aborda o problema de acordo como ele ocorre na maioria dos casos: um terror silencioso e maligno, uma aflição e um tormento na vida de crianças e adolescentes, o qual tem desdobramentos desastrosos para vítimas e familiares. Sem cair no chavão e no estereótipo, narra a situação de uma adolescente que após a morte da mãe, muda de cidade para tentar superar a perda; fechada e retraída em seu luto da mesma maneira que o pai, a jovem, vítima de uma exposição causada pelo acesso à tecnologia (no caso celulares e compartilhamento de vídeos) e do consumo abusivo de drogas lícitas e ilícitas pelo grupo agressor, sofre todo o tipo de perseguição e humilhação que o público nem supõe acontecer.
Dessa maneira, o diretor explora o problema com a mesma intensidade e crueldade que o bullying provoca, colocando o expectador numa situação sufocante, a qual o deixa num estado agonizante ao testemunhar tanta violência que o jovem é capaz de produzir. Em determinados momentos, chega-se a pensar que as situações retratadas são carregadas de exagero, tanto da parte dos agressores, os quais são capazes de agredirem a adolescente de uma forma selvagem, e também da própria vítima, que sofre toda a violência sem demonstrar nenhuma reação e nem a mínima tentativa de denúncia nos raros momentos em que o caso chega ao conhecimento dos adultos; por outro lado o diretor possivelmente usou a estratégia do excesso para revelar um lado sombrio do bullying, onde a vítima, por medo ou por outro motivo, apresenta um comportamento cada vez mais fechado e o agressor cada vez mais sem limites.
 Com um efeito de incômodo, insegurança, piedade e revolta causada pela trama, ela traz a possibilidade da sociedade analisar e tratar desse problema longe do sensacionalismo e encará-lo como um inimigo presente, porém na maioria das vezes imperceptível, em muitos momentos do cotidiano.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Nome aos bois



“Sempre colhem algo os pescadores de águas turvas...”
Wolfgang Leo Maar – Professor de ética e filosofia política da UFSCAR

            O Brasil sem dúvida vive um momento inédito em sua História. Como havia afirmado na semana passada, a suposta natureza pacata do cidadão brasileiro foi contestada, mostrando assim a sua força através dos manifestos espalhados em todo o país, inclusive em cidades pequenas. Todas as insatisfações em relação aos mais variados setores como saúde, educação, e administrações públicas foram gritadas; assim o povo deixou que as frases de repúdio ficassem somente nas rodas de conversas ou então disseminadas apenas nas redes sociais e as proclamaram para que chegassem aos ouvidos de possíveis responsáveis. Comparando as duas semanas, podemos pensar que a resposta violenta da polícia no dia 13 foi um tiro no pé das autoridades; a conjuntura atual leva a conclusão de que, para a população, não há mais espaço para tolerância.
            Se no início da semana passada nenhum representante político ainda tinha declarado algo em relação a tais reivindicações, os protestos da quinta-feira dia 20, deram outro rumo à condução dos manifestos, fazendo com que a presidente se pronunciasse a respeito, propondo um diálogo com os líderes do MPL (Movimento Passe Livre) e anunciando tentativas de fechamento de um pacote de medidas em saúde, educação, mobilidade urbana e transparência.
            Quanto à nossa mídia fascista (leia-se Globo e Veja) a qual usou os manifestos do dia 13 para professar seu discurso conservador e intolerante, viu-se, a partir do dia 17, obrigada a mudar de posição, uma vez que a própria Globo é hoje alvo dos manifestantes; a Veja, diante da pressão do povo nas ruas, mudou a referência que fez aos integrantes, deixando de classificá-los como “rebeldes sem causa” ou, no pior caso, de “anarquistas”, para algo parecido com “salvadores da pátria”. No entanto, esses meios de comunicação não deixaram de aproveitar as frases proferidas nas passeatas para inflamar seu clamor direitista e atacar à esquerda e alguns partidos políticos. Diante da força das massas nas ruas, passou a tratar os manifestos como símbolos de democracia e de engajamento político da juventude, mas não deixou de desviar o foco da questão, dando destaque a todo momento aos pequenos grupos que agiam com essas depredações, fazendo assim que o espectador mais se concentrasse nesses casos e deixasse de tomar dimensão daquilo que estava acontecendo.         
            É preciso alertar para que a mídia não se aposse desse discurso para transformá-lo em plataforma de campanha da direita, nem que ela use os casos isolados de distúrbio – os quais certamente acontecem em episódios de concentração de milhares de pessoas - para aos poucos minar o objetivo dos protestos. Da mesma maneira isso não deve acontecer com os políticos aproveitadores, o quais numa atitude oportunista, possam usar esses acontecimentos para imporem suas opiniões e atacarem seus opositores, caindo na mesma baixaria a qual estamos habituados.
É necessário lembrar que as críticas foram gerais, o que pode isentar qualquer representante de se defender ou tomar alguma iniciativa, uma vez que diretamente a ele nada foi acusado. Talvez o que deva estar faltando às esses protestos é dar nomes aos bois, ou seja, apontar nomes de políticos envolvidos em casos corrupção ou cobrar atitudes políticas de determinados ocupantes de cargos públicos, para que dessa forma muitos não usem esses episódios em benefício próprio ou para atacar seus adversários. Caso contrário, como nenhum nome foi dito, ninguém terá exatamente sobre si uma pressão que o force a tomar alguma atitude.
            O único receio em relação ao que tem acontecido, é que como os temas protestados estão difusos, variados e generalizados, sem uma diretriz e uma liderança, é que ele acabe esfriando, tornando-se inexpressivo e caia no esquecimento e tudo, aos poucos, volte à normalidade.
            Penso que essa seja a hora desses protestos terem uma direção e um interlocutor para que ele aponte o dedo a alguém em específico e esse mesmo dedo toque na ferida para valer, caso contrário aqueles que devam ser atingidos na realidade, irão afirmar que a eles nada foi impetrado ou então que a partir dessas insatisfações surja alguém que tome posse desse discurso e o use como propaganda e cresça em cima desse descontentamento generalizado, porém sem uma direção específica.  

Marcelo Augusto da Silva - 25/06/2013